Os aneurismas viscerais são dilatações anormais das artérias que irrigam órgãos abdominais, como fígado, baço, rins, intestino e pâncreas.
Embora sejam considerados raros quando comparados aos aneurismas da aorta, possuem grande relevância clínica porque podem evoluir silenciosamente até a ruptura, sendo uma complicação potencialmente fatal.
Com o avanço de exames como ultrassom e angiotomografia, o diagnóstico desses aneurismas tem aumentado significativamente nos últimos anos, muitas vezes de forma incidental.
Apesar de muitos pacientes nunca apresentarem sintomas, reconhecer os fatores de risco e saber quando o tratamento é necessário faz toda a diferença para prevenir complicações graves.
Neste artigo, você vai entender quais são os aneurismas viscerais mais comuns, quem apresenta maior risco, como é feito o diagnóstico e quais são as opções mais modernas de tratamento.
O que são aneurismas viscerais?
Os aneurismas viscerais correspondem à dilatação localizada das artérias responsáveis pela irrigação dos órgãos abdominais.
Essa dilatação ocorre devido ao enfraquecimento da parede arterial, favorecendo seu aumento progressivo de diâmetro.
Embora sejam incomuns, esses aneurismas merecem atenção porque podem romper de forma inesperada, causando hemorragia interna grave.
Em muitos casos, o diagnóstico ocorre durante exames realizados por outros motivos, antes mesmo do aparecimento de sintomas.
Quais são os aneurismas viscerais mais comuns?
Entre todos os aneurismas viscerais, alguns apresentam maior frequência e características específicas.
Aneurisma da artéria esplênica
É o aneurisma visceral mais frequente, representando aproximadamente 60% dos casos.
A artéria esplênica irriga o baço e possui um trajeto bastante tortuoso próximo ao pâncreas. Grande parte dos pacientes permanece assintomática por muitos anos.
Um ponto de atenção é a gestação.
Mulheres grávidas apresentam risco significativamente maior de ruptura desse aneurisma, principalmente durante o terceiro trimestre, com elevada mortalidade materna e fetal.
Aneurisma da artéria hepática
É o segundo tipo mais frequente. Pode estar relacionado à aterosclerose, trauma, pancreatite, infecções e procedimentos hepatobiliares.
Quando ocorre ruptura, pode provocar hemorragia digestiva alta, sangramento intra-abdominal e choque hemorrágico.
Aneurisma da artéria renal
Os aneurismas renais apresentam associação importante com hipertensão arterial e risco de comprometimento da função renal.
São mais comuns em pacientes com displasia fibromuscular, especialmente mulheres jovens.
Aneurismas pancreatoduodenais e gastroduodenais
Apesar de menos frequentes, possuem elevado risco de ruptura. Frequentemente estão associados à pancreatite crônica, trauma ou estenose do tronco celíaco.
Aneurismas mesentéricos
Os aneurismas da artéria mesentérica superior merecem atenção especial porque podem comprometer a irrigação intestinal, favorecendo isquemia, necrose intestinal e sepse.
Um estudo brasileiro avaliando mais de 92 mil angiotomografias identificou aneurismas viscerais em cerca de 1% dos pacientes examinados, sendo mais frequentes em homens e predominando no tronco celíaco e nas artérias mesentéricas.
Quem apresenta maior risco de desenvolver aneurismas viscerais?
Diversos fatores favorecem o desenvolvimento dos aneurismas viscerais.
Os principais incluem:
- Idade acima de 60 anos;
- Hipertensão arterial;
- Aterosclerose;
- Tabagismo;
- Doenças inflamatórias e vasculites;
- Pancreatite crônica;
- Traumas e cirurgias abdominais;
- Gravidez (especialmente para aneurisma da artéria esplênica);
- Doenças genéticas, como síndrome de Marfan e síndrome de Ehlers-Danlos.
Esses fatores contribuem para o enfraquecimento da parede arterial, favorecendo a formação e o crescimento dos aneurismas.
Quais são os principais sintomas?
Grande parte dos aneurismas viscerais é assintomática e descoberta incidentalmente durante exames de imagem.
Quando surgem sintomas, os mais comuns são:
- Dor abdominal persistente;
- Dor lombar;
- Sensação pulsátil no abdome;
- Náuseas e vômitos;
- Hemorragia digestiva;
- Queda da pressão arterial;
- Anemia sem causa aparente.
O maior risco ocorre quando acontece a ruptura do aneurisma.
Quais são as principais complicações?
A ruptura aneurismática é a complicação mais grave dos aneurismas viscerais. Dependendo da localização, a mortalidade pode variar entre 25% e 100%.
Quando ocorre ruptura, o paciente pode apresentar:
- Hemorragia interna maciça;
- Choque hemorrágico;
- Insuficiência de múltiplos órgãos;
- Isquemia intestinal;
- Infarto esplênico;
- Falência hepática;
- Óbito.
Além da ruptura, outra complicação importante é a trombose do aneurisma, que pode comprometer o fluxo sanguíneo para diferentes órgãos.
Nos aneurismas renais, também pode ocorrer piora progressiva da hipertensão arterial e perda funcional do rim.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico depende principalmente dos exames de imagem.
Os métodos mais utilizados incluem:
- Ultrassom com Doppler;
- Angiotomografia;
- Angiorressonância;
- Angiografia.
A angiotomografia é atualmente o principal exame para avaliar as características anatômicas do aneurisma e planejar o tratamento mais adequado.
Já a angiografia, além de diagnóstica, também pode ser utilizada durante o próprio tratamento endovascular.
Quando o tratamento é indicado?
Nem todo aneurisma visceral precisa ser tratado imediatamente.
A decisão leva em consideração fatores como:
- Tamanho (geralmente acima de 2 cm);
- Crescimento progressivo;
- Localização;
- Presença de sintomas;
- Risco de ruptura;
- Formato do aneurisma.
Pseudoaneurismas e aneurismas saculares, por exemplo, costumam ter indicação de tratamento independentemente do tamanho devido ao maior risco de ruptura.
Tratamento endovascular: a principal evolução no manejo dos aneurismas viscerais
O tratamento endovascular revolucionou o manejo dos aneurismas viscerais ao permitir intervenções minimamente invasivas, realizadas por meio de punção arterial, sem necessidade de grandes incisões.
As principais técnicas incluem:
Embolização com coils
Pequenas molas metálicas são posicionadas no aneurisma para interromper o fluxo sanguíneo e promover trombose controlada. Atualmente, é a técnica mais utilizada.
Stent revestido (stent-graft)
Permite excluir o aneurisma da circulação preservando o fluxo sanguíneo pela artéria. É especialmente útil quando o vaso precisa permanecer pérvio.
Embolização com agentes líquidos
Substâncias embolizantes podem ser utilizadas em aneurismas complexos ou pseudoaneurismas.
Entre as principais vantagens do tratamento endovascular estão:
- Menor trauma cirúrgico;
- Menos dor;
- Menor sangramento;
- Recuperação mais rápida;
- Redução do tempo de internação;
- Menor risco de infecção;
- Retorno precoce às atividades.
Estudos mostram taxas de sucesso técnico frequentemente superiores a 90% quando o procedimento é realizado em centros especializados.
Diagnóstico precoce reduz o risco de complicações
Os aneurismas viscerais são doenças potencialmente graves e frequentemente silenciosas.
Embora raros, representam importante causa de hemorragia abdominal e morte súbita quando ocorre ruptura.
Os aneurismas da artéria esplênica, hepática e renal estão entre os mais frequentes e acometem principalmente pacientes idosos, hipertensos, tabagistas e portadores de doenças inflamatórias ou pancreáticas.
Com os avanços das técnicas endovasculares, muitos pacientes podem ser tratados de forma minimamente invasiva, com elevada taxa de sucesso e recuperação mais rápida.
Ainda assim, o diagnóstico precoce continua sendo a melhor estratégia para prevenir complicações potencialmente fatais e melhorar o prognóstico.
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Dr. Marcelo Giusti | CRM-SP 132068
Cirurgião Vascular e Endovascular | RQE 52453
Radiologista Intervencionista | RQE 59003





