A doença arterial periférica (DAP), também chamada de PAD (Peripheral Artery Disease), é uma condição vascular causada principalmente pela aterosclerose, o acúmulo de placas de gordura nas artérias.
Embora muitas pessoas associem o problema apenas à circulação das pernas, a realidade é muito mais preocupante: a doença arterial periférica é um dos maiores marcadores de risco cardiovascular para infarto e AVC.
Pacientes com DAP frequentemente apresentam estreitamento ou obstrução das artérias dos membros inferiores, reduzindo o fluxo sanguíneo para músculos e tecidos.
O que muita gente não sabe é que o mesmo processo inflamatório e aterosclerótico que compromete as artérias das pernas também costuma afetar as artérias do coração e do cérebro.
Por isso, a doença arterial periférica não deve ser encarada apenas como um problema de circulação.
Ela é considerada uma manifestação sistêmica da aterosclerose e um importante sinal de alerta cardiovascular.
Qual é a relação entre doença arterial periférica, infarto e AVC?
A relação entre essas doenças está diretamente ligada à aterosclerose sistêmica.
Na prática, o organismo não desenvolve placas de gordura em apenas uma região isolada.
Quando um paciente apresenta obstruções nas artérias das pernas, existe grande chance de também haver comprometimento nas artérias do coração e do cérebro. E vice-versa.
Isso explica por que pacientes com doença arterial periférica apresentam maior incidência de:
- Infarto agudo do miocárdio;
- AVC isquêmico;
- Morte cardiovascular;
- Insuficiência cardíaca;
- Amputações.
DAP x Doenças cardiovasculares
Diversos estudos científicos demonstram que a DAP é um forte preditor de eventos cardiovasculares graves.
Um grande estudo envolvendo mais de 570 mil pacientes mostrou taxas extremamente elevadas de mortalidade cardiovascular, infarto e AVC em indivíduos com a doença.
Outro dado preocupante é que pacientes com índice tornozelo-braquial (ITB – um exame clínico realizado durante a avaliação dos pacientes com DAP) abaixo de 0,9 apresentam aumento de aproximadamente 60% no risco de mortalidade geral e quase o dobro do risco de morte cardiovascular.
Em outras palavras, muitas vezes a dor na panturrilha ao caminhar é apenas a ponta do iceberg de uma doença cardiovascular muito mais ampla.
Por que a doença arterial periférica costuma ser negligenciada?
Apesar de sua gravidade, a DAP continua sendo subdiagnosticada e subtratada em todo o mundo.
Os sintomas podem ser silenciosos
Muitos pacientes não apresentam sintomas clássicos. Outros acreditam que a dor nas pernas faz parte do envelhecimento, de problemas de coluna ou do sedentarismo.
A claudicação intermitente (dor ou cansaço na panturrilha ao caminhar) é um sinal típico, mas nem sempre está presente.
Em muitos casos, a doença só é descoberta quando surgem complicações graves, como:
- Feridas que não cicatrizam;
- Dor intensa em repouso;
- Gangrena;
- Necessidade de amputação.
O foco costuma ficar apenas no coração
Historicamente, infarto e AVC recebem muito mais atenção da população e dos sistemas de saúde.
Isso faz com que muitos pacientes sejam tratados para hipertensão, colesterol alto e diabetes sem investigação adequada da circulação periférica.
Entretanto, a presença de DAP frequentemente indica que o paciente já possui aterosclerose avançada.
Baixa conscientização
Diferentemente do infarto e do AVC, a doença arterial periférica ainda possui pouca divulgação junto à população.
Consequentemente, milhares de pacientes convivem com sintomas sem buscar avaliação especializada.
Quais são os principais fatores de risco para doença arterial periférica?
Os fatores de risco da DAP são praticamente os mesmos das doenças cardiovasculares.
Tabagismo
O cigarro é um dos fatores mais agressivos para as artérias periféricas.
Fumantes possuem risco várias vezes maior de desenvolver a doença, além de maior chance de progressão rápida, amputações e falha dos tratamentos.
Diabetes
O diabetes acelera o processo aterosclerótico e compromete especialmente vasos menores e mais distais.
Pacientes diabéticos apresentam maior risco de obstruções extensas, pé diabético, infecções e amputações.
Hipertensão arterial
A pressão alta lesa continuamente a parede dos vasos, favorecendo a formação e progressão das placas ateroscleróticas.
Colesterol elevado
Níveis altos de LDL estão diretamente associados ao acúmulo de gordura nas artérias.
Sedentarismo e obesidade
A falta de atividade física piora a saúde vascular, aumenta a resistência insulínica e favorece inflamação crônica.
Idade avançada e histórico familiar
O risco aumenta significativamente após os 60 anos e também em pessoas com histórico familiar de infarto, AVC ou DAP.
Quais são os sintomas da doença arterial periférica?
Os sintomas variam conforme a gravidade da obstrução arterial.
Os mais comuns incluem:
- Dor ou cansaço nas pernas ao caminhar;
- Sensação de peso;
- Queimação muscular;
- Pés frios;
- Dormência;
- Diminuição de pelos nas pernas;
- Feridas que não cicatrizam;
- Alteração da coloração dos pés;
- Dor em repouso nos casos avançados.
Em estágios críticos, pode ocorrer isquemia crítica dos membros, condição grave associada a elevado risco de amputação.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico geralmente começa com avaliação clínica e exame físico vascular.
Além disso, podem ser utilizados:
- Ultrassom Doppler vascular;
- Angiotomografia;
- Angiorressonância;
- Arteriografia.
O diagnóstico precoce é fundamental para reduzir o risco cardiovascular e evitar complicações graves.
Quais são os tratamentos mais modernos para doença arterial periférica?
Controle agressivo dos fatores de risco
Essa é a base do tratamento. Inclui:
- Parar de fumar;
- Controle rigoroso do diabetes;
- Controle da pressão arterial;
- Redução do colesterol;
- Alimentação saudável;
- Exercícios supervisionados.
Programas de caminhada supervisionada possuem forte evidência científica para melhora da circulação e da capacidade funcional.
Tratamento medicamentoso
O tratamento busca reduzir tanto os sintomas quanto o risco cardiovascular.
Entre os principais medicamentos estão:
- Antiagregantes plaquetários;
- Anticoagulantes;
- Estatinas;
- Vasodilatadores.
Tratamentos endovasculares minimamente invasivos
Os tratamentos endovasculares revolucionaram o manejo da DAP. Hoje, muitos pacientes podem ser tratados sem cirurgia aberta.
Entre as tecnologias disponíveis estão:
- Angioplastia com balão;
- Stents vasculares;
- Balões farmacológicos;
- Aterectomia;
- Litotripsia intravascular.
Esses procedimentos costumam proporcionar:
- Recuperação rápida;
- Menor tempo de internação;
- Menor trauma cirúrgico;
- Retorno precoce às atividades.
Reconhecer a doença arterial periférica pode salvar vidas
A doença arterial periférica não é apenas um problema de circulação nas pernas.
Ela representa um importante marcador de aterosclerose sistêmica e aumenta significativamente o risco de infarto, AVC e morte cardiovascular.
O grande desafio é que a doença continua sendo silenciosa, negligenciada e frequentemente diagnosticada tardiamente.
Reconhecer os sintomas precoces, controlar os fatores de risco e iniciar tratamento adequado pode não apenas salvar membros, mas também salvar vidas.
Com os avanços dos tratamentos endovasculares modernos, hoje é possível tratar muitos casos de forma minimamente invasiva, com recuperação rápida e excelentes resultados.
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Dr. Marcelo Giusti | CRM-SP 132068
Cirurgião Vascular e Endovascular | RQE 52453
Radiologista Intervencionista | RQE 59003





